I.Palermo
Fumou o último cigarro da carteira, sem ao
menos alimentar a fome, sentia fome de algo inexistente no mundo dos átomos... sem
ao menos alimentar sua fome com uma velha torta fria vegetariana que estava na
geladeira havia três dias .Bebeu café ,deixou metade deste na xícara .Tragou o
último vapor quando já estava com a
chave em direção a fechadura da velha porta do cubículo em que morava .
Tinha pressa, sempre teve pressa e ânsia em
seu ser, sem consentimento de seu signo que lhe assegurava ser alguém dotado de
serenidade e tranqüila paz.
Tinha de ministrar a primeira aula do dia, trinta
e poucos barulhentos alunos e alunas disciplina de Sociologia. Falaria mais uma
vez do fato social ,o motivo :estava cansado da ferrugem dos dias e não havia
em seus desejos apresentar novos conteúdos aos alunos ,além disso pouco ou nada
interessa aos alunos as relações sociais do ponto de vista de um mero professor
de quarenta e poucos anos já calejado das ondas que afetavam sua vida .Afinal
estamos nesta lata de salsichas e nada nos interessa saber o porquê .
Eram exatamente 07h45min da manhã, daria
tempo de comprar uma nova carteira de cigarros, calculou: cinco minutos no
contrato afirmado com a velha e deprimida proprietária do estabelecimento, e
dez minutos até a escola. Iria caminhando ,nunca soube dirigir e tinha medo de
tragédias .Chegou para comprar uma carteira clandestina de cigarros ,como
veremos Manuel por vezes gosta de sentir o sabor da ilegalidade .
Enfim... após chegar ao estabelecimento
chamado ironicamente de “Casa Weber” ,esperou com toda sua educação irônica
,educação está por medo de ter maiores envolvimentos ,quando se é educado
demais ,ninguém procura assunto .
A idosa que Manuel esperava afirmar o
contrato conta o vil metal para pagar a lasanha congelada, seria seu jantar provavelmente,
juntamente com um refrigerante qualquer.
-Bom dia Sra. Weber. Passou bem ?
-Manuel sabe que tenho bronquite, e que já não
posso como fazia como há quarenta anos, onde sentia o perfume dos jovens nos bailes,
bons tempos... Que queres ?
-Quero aquele cigarro importado (um sorriso
amarelo e irônico). Falou apressadamente .Também pensou mais uma vez
ironicamente ,que algum dia a Sra. Weber seria multada por tal dito cigarro
importado ,um bom ,velho ,e mal cheiroso Palermo .
-Estou com bronquite e queres cigarro?
-Sim quero-pensou: é meu companheiro nas angustias.
-Tudo bem. R$:4,50.
Manuel retirou exatamente quatro reais e
cinqüenta centavos do bolso e pagou a Sra. Weber, que colocou a única carteira
de cigarros em uma sacola média, seria útil para Manuel colocar o lixo, diga-se
de passagem, esqueceu que a coleta seria no dia de hoje, sábado. Pilhas de
enlatados no cesto que serão recolhidos na terça ,caso não esqueça novamente .
Chegou à escola 08h05min tempo mais que suficiente,
a seu ver para que a turma já esteja organizada, rude engano.
Começou a aula passando trechos de “Tempos
Modernos”, deixando de lado o fato social de Durkheim, já que o ar fresco da
rua, e o perfume não tão agradável dos jasmins deram-lhe novo animo nada de
extraordinário, como veremos adiante Manuel é intempestivo, às vezes é
tranqüilidade, outra é pura fragilidade.
Interrompe-se a aula por um toc ,toc na
porta ,quase não audível .Era a professora de Física ,recém retornando as
atividades por motivo de como dizem algumas línguas ,estava enlouquecendo ao
ler “A Paixão Segundo G.H “-Manuel também leu ,mas não matou a barata e foi
comer crevettes .Pediu piedosamente que pudesse utilizar a aula de Manuel ,para
recuperar as suas ,já que o colega estava adiantado ,e as férias se aproximavam
,preocupação extrema de nosso querido Manuel .
-Sem problemas Eva Neli, pode utilizar minha aula.
Não teve mais aulas naquele dia, foi para a
casa passando de cabeça baixa pelo corredor, sem ser reconhecido e sem desejo
de reconhecer algum colega, tinha pânico do contato, e por hora andava muito
ansioso e desanimado.
Escutou ao sair pela porta da sala Eva Neli
dizer “há coisas que existem que não podemos ver, mas que estão bem a nossa frente,
e até dentro de nosso próprio ser e em tudo que nos rodeia, talvez essa seja a
resposta”
Manuel agora já na soleira de sua casa fuma demasiadamente,
e prossegue na tentativa de ver o que sua existência não consegue lhe responder,
tudo está a sua frente, ele só precisa olhar.
By:Junior Beles